Theoria: Cultura e Civilização | História da Cultura

Da Introdução, por Luís Filipe Barreto:

“A teoria e a prática da História Cultural são um dos pilares da obra de Manuel Antunes, S.J. (1918-1985).

A História da Cultura é uma ciência factual social/humana de condição mais qualitativa que quantitativa (hoje diríamos uma ciência incerta que produz tipologias de regularidade provável/estatística, teorias de médio alcance válidas para um situado temporoespacial). Manuel Antunes coloca, desde o início, a História Cultural sob o signo da racionalidade crítico-científica, recusando toda e qualquer diluição da mesma nos reinos da retórica e da ideologia.

Para quem teve o privilégio de acompanhar as aulas de Manuel Antunes, nos inícios da década de setenta do século XX, é nítido que existe então uma renovada complexificação e aprofundamento do estatuto teórico da história da cultura.

[…]

Da antiguidade aos anos setenta do século XX, o arco temporal desenhado por Manuel Antunes permite ver no para além do instante e da superfície. E esse arco tanto serve para pensar a ecologia como o amor, o jogo ou o mito.

É uma proclamação dos tempos culturais como temporalidades sedimentadas e arqueológicas, da mais longa duração milenar ou multissecular. Camadas de sentido e, por isso, porosas e de uma autonomia interdependente porque o mesmo se faz outro mesmo na aparente repetição ou continuidade, porque “… não representa exactamente o mesmo hoje que ontem ou o mesmo hoje que amanhã…” (Manuel Antunes).

Neste volume de História da Cultura da Obra Completa de Manuel Antunes, a coordenada temporal é o fundamento da necessidade e da possibilidade. A historicidade é a casa do ser e do sentido.

Este fascínio pelo regime temporal do cultural não é um mero exercício erudito ou curioso, mas sim uma estratégia de conhecimento do presente. O tempo é para Manuel Antunes o fio por excelência da racionalidade do humano.

Racionalidade idealista porque acredita na potência da ideia e na força do ideal desde que caminhem pelas paisagens do diálogo e da pluralidade.

Manuel Antunes é um jesuíta e um pensador de profunda cultura cristã, todavia as suas estratégias de racionalidade dialogal pluralizam a sua base cultural que se torna eclética e sincrética. (pp. 1 e7)