Política e Relações Internacionais

Da Introdução, por Guilherme d’Oliveira Martins:

“Afinal, a Guerra do Peloponeso não exige para a sua compreensão que se possa reflectir sobre o fenómeno multissecular da Guerra? E a ascensão e queda das grandes civilizações e dos impérios não obriga a comparar situações diferentes e a contrastar estímulos e respostas diversificados? E o certo é que, a cada passo, encontramos o Padre Manuel Antunes a procurar, em simultâneo, pôr-se na pele do comentador, do jornalista, do cientista político, mas também do intelectual e do académico, para melhor poder lidar com a matéria-prima indispensável para o estudo e a interpretação de condicionantes fundamentais da história das culturas: a humanidade. E se nos deparamos com diferentes pseudónimos na fecundíssima condução da Brotéria, nos anos sessenta e início dos setenta, tal deve-se não só à preocupação de evitar uma orientação monolítica da revista, mas também à necessidade pessoal de assumir diferentes registos na escrita e no comentário.

[…]

Neste primeiro volume relativo à Política e às Relações Internacionais, singulariza-se o texto Repensar Portugal, publicado em livro, com assinalável êxito. A obra, dada à estampa originalmente em 1979, manteve, passados estes anos, uma curiosíssima jovialidade, o que não é fácil de acontecer quando estamos perante ensaios políticos e sociais. E, tendo sido os ensaios que a constituem escritos dez anos antes da queda do muro de Berlim, é muito interessante notar hoje um sentido profético nas considerações de Manuel Antunes. Daí que tenhamos de reconhecer que a citação de Nietzsche, usada pelo autor, ganha hoje uma pertinência evidente: ‘é a cultura que dota a consciência de memória, mas essa memória é mais função do futuro do que do passado’. Repensar Portugal exige a compreensão da importância de uma revolução moral. O autor fala, por isso, na necessidade de assumir o primado da produtividade sobre a propriedade, da cultura sobre a economia, do ser sobre o ter, da comunidade sobre a sociedade. A democracia necessitaria, assim, de concretizar os dês exigentes de um projecto renovado: desburocratizar, desideologizar, desclientelizar e descentralizar. Para tanto, haveria que interiorizar a democracia e que dignificar a política.” (pp. 1-3)