Estética e Crítica Literária

Da Introdução, por Miguel Real:

“Sintetizando a experiência de quase uma dezena de anos como crítico literário, o Padre Manuel Antunes, em 1960, escreve o texto citado ‘Da Crítica Literária’. Mais do que um texto teórico, explorador de uma conceptualização formal sobre a crítica literária, e menos do que exprimir preferência por uma outra corrente crítica, evidencia limpidamente a sua permanente posição activa e recreativa face ao mundo, que posteriormente designará como ‘revolução’ da ‘sensatização’, isto é, a ‘revolução’ da ‘sensatez’, de todo afastada de caminhos extremistas. Em ‘Da Crítica Literária’, Manuel Antunes confessa que adoptara duas metodologias analíticas complementares: ‘Em crítica literária, havendo tantos métodos, nem todos servem a todos. Pelo que lhe diz respeito e na estreiteza dos seus próprios limites naturais, o autor destas páginas tem procurado conjugar dois desses métodos: o fenomenológico e o dialéctico. O primeiro surgiu-lhe como o meio mais adequado para conseguir uma rápida e rigorosa ‘leitura’ de sentido; o segundo apareceu-lhe como o seu complemento indispensável na tentativa de apreensão do movimento cultural e de integração do fenómeno literário no conjunto histórico’.

Humanista, de sólida formação histórica, nunca o Padre Manuel Antunes poderia estatuir como absoluto o método fenomenológico da descrição, pretendendo este instaurar cada obra literária como um todo auto-suficiente e independente, valendo por si, de certa forma reduzindo o conteúdo à forma por que este se apresenta à consciência. Daí o método dialéctico complementar, fazendo entrar o conteúdo na forma, ou combinando harmonicamente estes dois elementos na unidade da obra. Deste modo, analisando atentamente a prática da crítica literária do Padre Manuel Antunes na Brotéria, ao longo de toda a década de 50 (período a que, de certo modo, corresponde este capítulo de Ao Encontro da palavra (I)), constata-se, de facto, que o autor harmoniza com grande perícia a autonomia da estrutura formal do texto, o sentido estético por este evidenciado e a vinculação de ambas ao sentido histórico conjuntural que, por sua vez, enlaça a obra literária num sentido cultural propriamente dito.” (pp. 7-8)