Estética e Crítica Literária

Da Introdução, por Miguel Real:

“Ao longo da década de 50, o Padre Manuel Antunes, já como colaborador permanente da revista Brotéria, na rubrica “Vida Literária”, escrita em parceria com o Padre João Mendes, fez igualmente parte da direcção fundadora da revista literária de Braga Quatro Ventos. Revista Lusíada de Literatura e Arte, dirigida pelo crítico literário Amândio César, verdadeira alma desta publicação. A colaboração quantitativa e qualitativa do Padre Manuel Antunes na Quatro Ventos é, porém, inversamente proporcional à importância dos cargos exercidos, os de direcção e redacção. De facto, ao longo dos três anos da existência da 1.ª série (1954-1957), apenas contribui com um brevíssimo apontamento sobre a morte da escritora francesa Collete e um artigo, “O Teatro Poético de T. S. Eliot”. Muito, muito pouco, comparado com a produção mensal publicada na rubrica “Vida Literária”, da Brotéria. Porém, o fraco grau de empenhamento de Manuel Antunes na Quatro Ventos não se deve – cogitamos – exclusivamente à sua dedicada participação na Brotéria. Factores de natureza ideológica devem, igualmente, ser tidos em consideração, já que Quatro Ventos praticava uma crítica literária de timbre nacionalista.

[…]

Universalista e humanista, Manuel Antunes interroga-se sobre – entre tantas – a qualidade fundamental que deve acompanhar o crítico. E responde, reiterando a sua afirmação inicial: ‘a intuição compreensiva da totalidade’ do ser. Isto é, total ausência de nacionalismo literário, como em filosofia registará, cinco anos mais tarde, dever existir total ausência de nacionalismo.

Com efeito, avolumando-se o modo ideológico de transfiguração do fundo cultural da língua portuguesa em operador ideológico (‘lusíada’), promovido pela redacção de Quatro Ventos, e avolumando-se a concepção de crítica literária do Padre Manuel Antunes desde 1952 na Brotéria, uma concepção universalista e humanista, com evidência se constata serem ambas contraditórias, justificando-se assim o pouco empenho deste autor na primeira revista. Sem rupturas expressas nem negações conflituosas, como sempre foi timbre da sua personalidade humanista, o Padre Manuel Antunes limitou-se a aceitar o convite dos seus amigos de Braga para participar em Quatro Ventos, não se empenhando, todavia, nesta.” (pp. 1 e 4-5)