Correspondência e Outros Textos

Da Introdução, por Aires A. Nascimento:

“Partiu Manuel Antunes definitivamente antes da consumação da revolução da informática nos comportamentos de comunicação; ateve-se ele aos registos da escrita, manual e impressa, atento à formalização dessa escrita para atender à relação humana que ela possibilitava, mas apercebemo-nos facilmente que essa correspondência epistolar não era mais do que supletiva no encontro directo, que lhe agradava mais porque propício a desfazer dúvidas e equívocos ou capaz de suscitar empenhamentos pessoais. Sócrates bem dissera que o registo escrito não respondia à singularidade do leitor; Manuel Antunes lança nas suas cartas o que a distância não lhe tolera fazer pela palavra que do coração passa pela mente e chega aos lábios – por isso o telefone servia para os mais diversos contactos (e disso não ficaram registos, embora haja referências).

Diversos foram os correspondentes, diferentes as relações que com eles se criaram, variados os modos de as traduzir – um cartão de Boas Festas emparceira com um outro de presença ou de resposta breve, porque o tempo não sobrava para mais; alargam-se algumas cartas à dimensão das efusões que é possível conter no registo que não tem pretensões de exposição. Não temos, por outro lado, cartas de direcção de consciência propriamente dita: ou elas não existiram ou a discrição ditou (a ele e ao seu correspondente) que não se guardassem mais que o tempo necessário para devolver a resposta que se fechava no circuito que pertencia a quem iniciara o processo no interior da sua consciência e a ela voltava. Não temos também documentos que façam parte da sua participação na vida familiar de comunidade religiosa: compreensível tal restrição, pois esse domínio pertence a muitos outros com quem ele convivia de forma plena, e só eles (com o discernimento que lhes cabe) poderão determinar o tempo e o modo de trazerem a conhecimento alheio os testemunhos que eles eventualmente conservam.” (p. 4)