“A mensagem de Repensar Portugal é uma mensagem essencialmente política, de transformação do modo de estar e de fazer política em Portugal, em que o autor dá ênfase a uma política interessada no bem do povo, o chamado Bem Comum, e à modernização do país, e não aos interesses egoístas dos atores políticos. Trata-se, assim, de uma mensagem de crítica, que pretende vergastar os vícios tradicionais da política portuguesa: a burocracia, o centralismo, o partidarismo e o clientelismo. (…) Nesse sentido podemos afirmar que Repensar Portugal faz o diagnóstico dos males da política portuguesa, de que nós ainda hoje nos queixamos, e propõe soluções para a cura destes problemas crónicos.”

(in José Eduardo Franco (coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Lisboa: Gradiva, 2011, p. 325)

 

“Recriar Portugal por Portugal, voltando Portugal a reconhecer-se como país europeu, um país pequeno mas com um passado grande e, com base nesse passado, poder recriar-se no presente, contribuindo na Europa e com a Europa para estabelecer uma nova era de relações globais, em que Portugal seja mediador e construtor de concórdia, de paz e de maior compreensão entre os povos.”

(in José Eduardo Franco (coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Lisboa: Gradiva, 2011, pp. 325-326)

 

“É um pensamento luminoso que faz eco das velhas utopias portuguesas e europeias que sonhavam uma era de paz e de fraternidade entre os povos e que o Padre Manuel Antunes atualiza de forma brilhante, mas na linha de uma utopia realista e não de uma utopia delirante, como aconteceu nos séculos XVI e XVII.

É, portanto, uma utopia que, considerando as condições do presente e verificando os problemas, propõe um ideal de transformação do país e do mundo, um ideal utópico e mobilizador, necessário para alentar os ânimos para essa transformação da realidade hodierna.”

(in José Eduardo Franco (coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Lisboa: Gradiva, 2011, pp. 326)

José Eduardo Franco

“Há um texto que o Padre Manuel Antunes nos deixou e que constitui o testemunho do modo como ele encarou esse período, que é o Repensar Portugal. Tratando-se de um homem contido ao nível da expressão, moldou o entusiasmo que sentia de uma forma muito discreta, naquilo que foi sempre o seu timbre, ou seja, numa grande capacidade reflexiva. De facto, o Padre Manuel Antunes transformava a expressão de satisfação pela mudança na visão lúcida dos problemas que surgiriam.”

(in José Eduardo Franco (coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Lisboa: Gradiva, 2011, p. 96)

 

“O Padre Manuel Antunes seduzia pela sua inteligência, pela luminosidade na enunciação da palavra, que exprimia com segurança e ao mesmo tempo com humildade. Ele estava ao serviço da palavra. O conjunto de ensaios publicados no livro Ao Encontro da Palavra mostra a encarnação de uma palavra inteligente, fora dos esquemas de domínio. A sua exposição era sempre de uma isenção e completude, de uma exigência e rigor, que, para nós, alunos, constituía um fator permanente de admiração e encanto.”

(in José Eduardo Franco (coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Lisboa: Gradiva, 2011, pp. 97-98)

Manuel José do Carmo Ferreira

“Eu recordo um Padre Manuel Antunes interveniente na nossa sociedade mais ao nível do pensamento, através do que ia escrevendo na Brotéria, do que propriamente através de tomadas de posição nas aulas. Era fácil sentir e perceber que as questões da filosofia em Portugal trabalhadas no seminário não eram meramente especulativas, mas que se prendiam com a vida das pessoas e com a vida da sociedade.”

(in José Eduardo Franco (coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Lisboa: Gradiva, 2011, p. 196)

Luís Machado de Abreu

“Quando falava ou escrevia estava sempre a pensar nos dias de hoje. Não se refugiava na noite da História, como se fora um fantasma distante e etéreo. O mestre era de agora, com capacidade de olhar as estrelas.” (p. 205)

“O humanismo do Professor Manuel Antunes foi, assim, um humanismo de gente, de pedras vivas, do espírito criador, da memória contra o esquecimento, do despertar e do construir, do crer e do verificar, das ideias e das pessoas, da razão e da fé.”

(in José Eduardo Franco (coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Lisboa: Gradiva, 2011, p. 207)

 

“Mais do que ensino, o que preocupava o Padre Manuel Antunes era o exemplo. Por isso mesmo houve quem o acusasse do pecado da dispersão. Mas como poderia exercer a virtude do amor se não se desse generosa e empenhadamente a quem lho pedia? Hoje, com a publicação da sua obra, percebemos que há uma extraordinária coerência em tudo. As várias dezenas de pseudónimos que povoaram a Brotéria representam a procura de vários caminhos e a necessidade incessante de se pronunciar sobre os sinais dos tempos. E se virmos bem há muitas perplexidades, há hesitações e sobretudo há a recusa dos juízos definitivos. O mundo está cheio de contradições. A complexidade obriga a seguir vários métodos.”

(in José Eduardo Franco (coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Lisboa: Gradiva, 2011, p. 208)

 

“Quando escreveu Repensar Portugal, houve quem lesse as suas reflexões (escritas em vários momentos) como se se tratasse de um programa político para o curto prazo, a pensar em fulano ou sicrano, na força A ou B. Quem o julgou, enganou-se redondamente. Hoje, à distância, relendo serenamente a sua obra, percebemos que se mantém atual. Nada tinha a ver com a conjuntura. Pensava Portugal como realidade antiga, com desafios exigentes, a que continuamos a responder mal e tardiamente. Assim como hoje ainda lemos a Carta do Infante D. Pedro a D. Duarte, escrita em Bruges, continuará a ler-se o Repensar Portugal como um apelo a pensar, a fazer e a mudar.

[…]

Estado e sociedade civil, pessoas e comunidades, todos são chamados à ideia de “mudança”, como ato de consequências duráveis, e não apenas promessa populista. Na política, na economia, na sociedade e na cultura o humanista aponta para a sabedoria das medidas graduais e sobretudo para o sentido da responsabilidade e da justiça. Eis a sua lição, ancorada solidamente na herança dos clássicos.”

(in José Eduardo Franco (coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Lisboa: Gradiva, 2011, pp. 208-209)

Guilherme d’Oliveira Martins

“Eu tinha dezoito anos quando fui seu aluno pela primeira vez e senti que tudo o que tinha aprendido no liceu com os professores de Filosofia, de Literatura e de História se concretizava ali, na Faculdade, com aquele homem pequenino, que andava muito devagar, que sorria abundantemente para nós e que sempre que eu entrava me cumprimentava como se eu fosse uma das pessoas mais importantes da vida dele. Esta manifestação de afeto admirava-me, pois os restantes professores, mesmo depois do 25 de Abril, eram pessoas que mantinham um certo distanciamento e superioridade. Porém, a aproximação do Padre Manuel Antunes não era falsa ou interesseira, fazia parte da sua maneira de ser.”

(in José Eduardo Franco (coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Lisboa: Gradiva, 2011, pp. 89-90)

 

“Eu lembro-me de ler o artigo de Maio de 74 sobre o 25 de Abril, em que ele defendia que era necessária uma mudança profunda de que já falara num dos seus livros, publicado em 73 (penso que seja o livro Educação e Sociedade), em que defende a necessidade de uma ‘reforma da sensatização’. Recordo-me de chamar a atenção do Padre Manuel Antunes, dizendo que o que ele escrevera em 73 estava a acontecer em 74, ou seja, estava a acontecer a tal ‘revolução da sensatez’ que ele anunciara.”

(in José Eduardo Franco (coord.), Um Pedagogo da Democracia: Retratos e Memórias sobre o Padre Manuel Antunes, sj, Lisboa: Gradiva, 2011, p. 91)

Miguel Real